Numa entrevista exclusiva disponível na internet, podemos saber quem foi e o que fez o profissional ao qual homenageamos dando seu nome ao Centro Acadêmico de Odontologia da Universidade Tuiuti do Paraná.
Dr. Cláudio Cezar de Miranda
Foi Diretor científico da PCL – Revista Brasileira de Prótese Clínica e Laboratorial, Coordenador do Curso de Odontologia da Universidade Tuiuti do Paraná, onde foi professor da disciplina de prótese dentária, autor de quatro livros de sucesso, tendo ministrado mais de 200 cursos no Brasil e exterior e possuido uma das melhores clínicas do sul do País.
Seu pai era cirurgião-dentista?
Não, mas era como se fosse, pois tudo o que fosse relacionado à Odontologia interessava-lhe. Sempre foi aquele que mais orgulho sentia de minha atuação e conduta como cirurgião-dentista. Recentemente, eu o perdi e sem dúvida faz uma indescritível e enorme falta. Seus conselhos e suas lições de vida fizeram-me ser um homem trabalhador, honesto e leal. Ensinou-me também a perdoar àqueles que em algum momento impensado de suas vidas, marcados por desvios de uma conduta normal e por um descuido do destino, tentaram me prejudicar e não conseguiram.
Quando pensou pela primeira vez em fazer Odontologia?
Todo o meu aprendizado que antecedeu ao Curso de Odontologia, foi obtido no Colégio Santa Maria. Os Irmãos Maristas realmente foram marcantes na minha formação e me proporcionaram o ingresso na Universidade Federal do Paraná, no ano de 1967.
A minha intenção em 1966, era fazer o Curso de Medicina e era tido, junto com alguns de meus colegas de científico, como vaga certa ao ingresso na Universidade. Não passei no vestibular, tendo sido o único do grupo que ficou para trás. Foi uma amarga experiência. Fiquei perdido e até cheguei a fazer um vestibular em Direito na Faculdade Católica, porém não passei novamente. No ano seguinte, por questões de honra eu estava decidido. Tinha que ingressar em alguma Faculdade. Estava inscrito para o vestibular de Medicina, Odontologia e Agronomia na Universidade Federal do Paraná e Medicina na Universidade Católica.
Os concursos para o vestibular na Universidade Federal do Paraná não eram coincidentes.
O primeiro vestibular realizado foi o de Medicina na Universidade Federal do Paraná. O segundo, foi o de Odontologia. Simultaneamente, saíram os dois resultados e eu fui aprovado somente no vestibular de Odontologia. Que alegria senti, pois havia passado em 2º lugar e assim, resolvi ser cirurgião-dentista, não tendo comparecido aos dois outros concursos em que estava inscrito.
Entretanto, ainda pairava uma dúvida sobre a minha vocação. Seria mesmo a Odontologia o meu caminho? Por um capricho do destino, foram publicados os resultados do vestibular em uma listagem computadorizada e eu era o nº 173 da lista para o ingresso em Medicina na Universidade Federal do Paraná. O número de vagas era de 160.
Nas normas para o concurso vestibular daquele ano, existia um item que dizia mais ou menos assim: “terá direito ao ingresso no curso de Medicina, todo candidato que obtiver média igual ou superior a quatro, desde que não tenha sido reprovado em nenhuma das matérias envolvidas no concurso vestibular”.
Sendo assim, surgiu um advogado, do qual eu não me recordo o nome, que entrou na justiça com um pedido de garantia de vaga e todos os alunos que se encontravam qualificados ganharam o direito ao ingresso na Universidade.
Como não seria possível o ingresso de tantos candidatos (eu era o 13º da lista), foram abertos novos cursos de Medicina em três cidades brasileiras, das quais me recordo de duas, Campos no Estado do Rio de Janeiro e Manaus no Estado do Amazonas. Coube-me uma vaga na cidade de Campos e eu não fui, preferi continuar a Odontologia que me encantava profundamente e assim, pude dizer “não” à Medicina.
Como foram os seus anos na Universidade?
Foram fantásticos. Encontrava-me plenamente realizado. Fui sempre um aluno interessado, empenhando-me ao máximo em todas as disciplinas do curso. Não tive nenhuma reprovação e fui aprovado sempre por média, nunca tendo que fazer nenhuma prova final. Para ser aprovado por média era exigida uma nota igual ou superior a sete.
Onde foi o seu primeiro consultório?
Foi na Rua Marechal Deodoro em Curitiba. Meu pai me fez uma grande surpresa. Comprou-me uma sala comercial e nela instalamos um equipamento DABI-TM, que era um luxo da época. Quando tudo estava pronto, isto 6 meses antes de me formar, meu pai marcou um encontro comigo nas dependências do mesmo e disse-me: “meu filho, eu investi tudo o que tinha neste consultório. Tenho, além de você, mais três filhos. Passo para você a partir de hoje a responsabilidade de que na minha falta você faça o mesmo por eles. Espero entretanto, que eu possa fazer por eles o que fiz por você”. E ele conseguiu. Formou os três outros filhos, um em Medicina, outro em Odontologia (por minha influência) e o terceiro em Direito, dando condições à todos para o início de suas profissões.
Dois anos depois eu ampliei o meu consultório com mais uma sala e mais um equipamento, frutos de um grande início e de muito trabalho.
O que o levou ao magistério?
Com certeza o amor que eu tinha e tenho pela Odontologia e o exemplo de dedicação que encontrei na grande maioria de meus ex-professores. Tive durante a minha formação, fantásticos mestres.
Tão logo me formei no curso de Odontologia, voltei à Faculdade para realizar estágio de aprendizado e desde esta época (1971) encontro-me envolvido com o ensino. Meu ingresso oficial como Professor Auxiliar de Ensino foi no ano de 1973 na Universidade Federal do Paraná. Fui Professor Titular na Universidade Católica do Paraná e atualmente, sou Professor do Curso de Odontologia da Universidade Tuiuti do Paraná.
Quantos Cursos já ministrou?
Recebi o grau de Cirurgião-Dentista no dia 20 de Dezembro de 1970. Neste final de ano vou completar 30 anos no exercício da Odontologia. Acredito que devo estar próximo de cerca de 200 cursos ministrados, sem contar com as conferências, participação em seminários e simpósios.
No exterior, ministrei cursos e conferências em várias cidades argentinas - Buenos Aires (três vezes), Córdoba, Tucuman, Ascochinga e San Martin de Los Andes. No Chile, estive duas vezes em Santiago. No Uruguai, estive em Montevidéo. Na Bolívia - Santa Cruz (2 vezes). No equador - Guayaquil (2 vezes). No Peru - Lima (2 vezes). No México - Cidade do México.
Algum fato deu impulso à sua carreira?
Acredito que tenha sido talvez a edição de meu primeiro livro entitulado “Atlas de Prótese Parcial Fixa e Removível”, editado pela Livraria Santos em 1982, por indicação de meu nome à esta Editora pelo saudoso Professor Antonio Fernando Tommasi.
Quais são os seus outros livros publicados?
O segundo livro foi publicado em 1984, também pela Editora Santos e tem como título “Atlas de Reabilitação Bucal”. Este livro foi reeditado por cinco vezes num total, segundo a Editora, de 10 mil volumes.
O terceiro livro leva como título “Atlas de Reabilitação Bucal: Núcleos Metálicos”. editado pela Quintessence e Editora Santos em 1994.
O quarto livro tem como título “Preparo e Moldagem em Prótese Fixa Unitária”, que faz parte da coleção da série EAP-APCD, editado pela Editora Artes Médicas.
Além destes, tive participação em capítulos sobre Prótese Fixa nos livros de Atualização na Clínica Odontológica da APCD, nos anos de 1992-1996 e 2000, assim como também, no livro de Odontologia Integrada, Livro Oficial do 14º Congresso Internacional de Odontologia do Rio de Janeiro em 1999.
Como é ser casado com uma Cirurgiã-Dentista?
É realmente bastante interessante, pois comungamos de uma mesma filosofia de trabalho e desta forma nossa produção triplica. A Elza Maria, além de me completar de uma forma conjugal, completa-me também profissionalmente, tendo sido, em todos os sentidos, a grande estimuladora de minhas atividades profissionais. Participou e participa de todos os meus trabalhos de Reabilitação Bucal Protética, assim como também na elaboração de todos os meus livros e trabalhos clínico-científicos.
O fato de ter dois filhos odontólogos, significa que o exemplo foi bom?
Com certeza, sim. A minha dedicação e o amor à minha profissão, fizeram com que eles também amassem a Odontologia. A Daniele já é especialista em Odontopediatria e o Marcelo realiza Cursos de Atualização em Implantes para na seqüência, ingressar na Especialidade.
Conte-nos um pouco sobre sua função de Coordenador do Curso de Odontologia da Universidade Tuiuti do Paraná:
Segundo o pensamento “um homem para cumprir o seu objetivo na vida, deverá ter um filho, escrever um livro e plantar uma árvore”, digo que tenho quatro filhos, dois dos quais cirurgiões-dentistas, já escrevi quatro livros e em cinco outros, cinco capítulos. Já plantei dezenas de árvores e as vi crescerem majestosas.
Tive a responsabilidade de construir um Curso de Odontologia em 1992 e o coordeno até os dias de hoje, vendo-o crescer majestoso e respeitado mesmo por aqueles que tentaram de todas as formas denegrí-lo.
O Centro Acadêmico do Curso de Odontologia da Universidade Tuiuti do Paraná, para minha satisfação e pelo carinho de todos os meus alunos, leva o meu nome.
Mesmo assim, ainda acredito que tenho muito por fazer pela nossa Odontologia.
Coordenar um Curso de Odontologia não é nada fácil, porém tive de todos os meus superiores plena liberdade em realizar aquilo que sempre me pareceu correto.